A Casa da Torre da marca - A Torre de Pero Sem

Situada na esquina das Ruas D. Manuel II e Júlio Dinis, na freguesia de Massarelos, da cidade do Porto, encontra-se uma casa brasonada que, na frente que dá para a Rua da Boa Nova, se encosta a uma velha torre de construção tipicamente medieval, classificada como Monumento Nacional (Dec. 16-06-1910, DG. 136 de 23 de Junho de 1910, ZP, DG. 115 de 16 de Maio de 1960). É hoje correntemente designada por Casa da Torre da Marca, mas por manifesta confusão com uma outra torre, esta sim uma verdadeira Marca (baliza), para referência dos navios que demandavam a barra do Douro e que foi construída pela Câmara em 1542, a pedido do rei D. João III, em substituição de um pinheiro que ali existia com as mesmas funções, nos terrenos onde hoje se situa o Palácio de Cristal, ao fundo da Avenida das Tílias. Esta torre foi muito danificada pela artilharia miguelista, acantonada no alto do Castelo de Gaia, para atingir os liberais que, à sua sombra, ali tinham instalado uma bateria, durante o Cerco do Porto, e a sua reparação, embora decidida em 1839, nunca chegou a ser levada a efeito.

Na planta do Porto que George Balck desenhou em 1813, pode ver-se claramente a localização exacta desta Torre da Marca, no extremo sul do Largo com o mesmo nome, como também se pode descobrir que se situa na Rua dos Quartéis (depois do Triunfo, e hoje de D. Manuel II), registado com o nº XXII e depois identificado, no canto superior esquerdo, como sendo a Casa de Brandão. Logo atrás, mas ainda separada desta, já na Rua da Boa Nova, quase em frente à Rua do Príncipe (actual de Miguel Bombarda), uma torre, que tudo leva a crer seja a Torre de Pêro Sem (Anselmo Braamcamp Freire apresenta outras grafias: do Sem ou Dosem ou Dossem, d’Osem ou D’Ossem, Docem ou D’Ocem, defendendo que a sua ortografia correcta de acordo com a etimologia, é do Sem).

A Torre de Pero Sem

J.J. Gonçalves Coelho pensa que a torre era propriedade de uma família fidalga, de origem aragonesa, frequentemente defendida pelos nossos cronistas, especialmente por Fernão Lopes, os Docens. Numa escritura datada de 1312, um Martim Docem aparece como intermediário numa quitação que dá Domingos Martins Bicos a Maria Martins, viúva de Fernão Leite. Deste Martim Docem seria, segundo alguns, filho Pero Docem, embora Gonçalves Coelho acrescente, em nota, que é mais de crer que tenha vindo de Aragão para Portugal no séquito da Rainha Santa Isabel. Este Pero, que terá sido quem deu o nome à Torre foi cavaleiro da Casa da Rainha Santa Isabel, mais tarde, ouvidor (em 1327) e chanceler-mor (de 1336 a 1341) no reinado de D. Afonso IV. Sabe-se que, num documento de 1431, entre os bens deixados por Martim do Sem, bisneto do referido Pero e chanceler-mor de D. Duarte que faleceu em Santarém e ali Jaz sepultado na Igreja de S. Domingos, figura a quinta da Torre de Pero do Sem, na comarca do Porto.

Mas houve um outro Pedro, Pedrossen, negociante hamburguês que terá vindo para o Porto no último quartel do séc. XVII e que se estabeleceu na freguesia de S. Nicolau, ali enriqueceu e tomou parte na fundação da Companhia das Vinhas do Alto Douro e cuja descendência se uniu pelo casamento a algumas das gradas famílias do Porto.

É com este Pedrossen que Pinho Leal relaciona a lenda do negociante rico e orgulhoso, senhor da Torre do mesmo nome, que, ao ver os seus navios entrarem a barra carregados de mercadorias preciosas, desafiou o

próprio Deus: Agora nem Deus seria capaz de me fazer pobre. Acto contínuo, uma tempestade destroçou todos os barcos e reduziu-o à miséria, obrigando-se, o pobre, a andar pelas ruas a pedir: dai esmola a Pedro Sem, que já teve e agora não tem. Esta lenda, que se terá formado na segunda metade do séc. XVIII, foi explorada literalmente por vários autores do século XIX, e ocupou lugar de relevo na chamada literatura de cordel, sob o título de História e vida de Pero  Sem, em prosa e verso, da colecção de edições do Basar Feniano, do Porto. Mas, como lenda que é e sobre um tema comum a outros povos, nada nos garante que tenha qualquer fundamento real e, para além do nome, eventualmente sugerido pela rima, tenha algo a ver com qualquer das personagens em questão. Como quer que seja, sabe-se que, por escritura lavrada no tabelião Pedro Fernandes do Porto, em 26 de Fevereiro de 1492, a Torre com os seus anexos, ali identificados como quinta da Boa Vista, passou das mãos de um outro Pero do Sem, sobrinho do referido Martim do Sem, para os seus parentes colaterais, João Sanchez, fidalgo castelhano, e sua mulher Isabel Brandoa, da Casa dos Condes da Feira. Esta é a razão por que a Torre aparece depois identificada como de Brandão ou dos Brandões.

Terá sido um seu descendente, Luís Brandão de Mello, quem construiu a casa junto à Torre, na segunda metade do século XVIII e ali terá nascido, em 1793, o seu filho José Maria Brandão de Mello que casou, em 1814, com D. Maria Emília Correia de Sá, filha do primeiro Marquês de Terena. A neta deste José Maria, D. Eugénia Maria Brandão de Mello, 3ª Marquesa e 4ª Condessa de Terena e 3ª viscondessa de S. Gil de Perre, casou em 29 de Julho de 1861, com o seu tio materno D. Filipe de Sousa Holstein, 1º Marquês de Monfalim e filho dos Duques de Palmela. Deste casamento não houve descendência, pelo que a Casa e a Torre foram deixadas a suas sobrinhas D. Mariana e D. Eugénia de Jesus de Sousa Holstein. Esta, nascida a 7 de Março de 1866, professou na Congregação das Irmãs de Santa Doroteia em 1897 e veio a falecer em 31 de Maio de 1937.

Ao serviço da Igreja do Porto

O Edifício da Torre - O Edifício do Palácio