Ciclo sobre jesus cristo - 2013/2014

Pensado para concretizar o lema do ano letivo 2013/2014 (Conhecer e confessar Jesus Cristo), o Ciclo sobre Jesus Cristo, realizado entre outubro de 2013 e abril de 2014 integrou, numa primeira fase, a projeção do documentário Jesus de Nazaré, de Maité Carpio, em três sessões, e uma conferência de Maria do Rosário Soveral, subordinada ao tema De Jesus de Nazaré ao Cristo de Deus.

O documentário contou em cada sessão com uma introdução de D. António Taipa, bispo auxiliar do Porto e professor de Sagrada Escritura no CCC, que também respondeu no final às perguntas dos presentes. Na sessão de 8 de outubro de 2013, em que se visualizou a primeira parte, sob o título Uma história na história, D. António Taipa falou sobre a historicidade de Jesus de Nazaré, a partir de um olhar crítico sobre as fontes cristãs e pagãs que nos permitem chegar até ele. Na sua exposição deixou um repto a conhecer o Jesus humano, ponto de referência para não construirmos um Filho de Deus à nossa medida. Relacionou também a pessoa de Jesus Cristo com o Ano da Fé e a Nova Evangelização, nomeadamente quando se referiu à necessidade da Igreja recuperar a alegria de crer. A descoberta da humanidade de Jesus revela que é na teia da relação humana que o homem se relaciona com Deus. Na sessão de 5 de novembro, em que foi projetada a segunda parte, sob o título Hebreu entre os hebreus, D. António Taipa introduziu o documentário referindo à descoberta de Jesus no seu caráter hebraico, sobretudo nos estudos que se fizeram a partir da II Guerra Mundial, e caraterizando o ambiente político, social e religioso do tempo de Jesus. A este propósito ateve-se à ocupação romana da Palestina e à tipologia dos diversos grupos religiosos que constituíam o judaísmo de então. Na sessão de 4 de dezembro, em que foi vista a última parte do documentário, intitulada Homem entre os homens, D. António Taipa referiu-se à consciência messiânica de Jesus e à sua liberdade no assumir radical da humanidade até à morte. As sessões, sempre com numerosa assistência, valeram não só pela introdução e pelo filme, mas também pelo interessante diálogo que se seguiu entre os presentes e D. António Taipa.

A primeira fase do ciclo concluiu-se em 7 de janeiro de 2014 com a conferência De Jesus de Nazaré ao Cristo de Deus, proferida por Maria do Rosário Soveral, doutora em teologia e professora no CCC. Depois da aproximação ao Jesus histórico proporcionada pelo documentário, a conferência ofereceu uma abordagem mais teológica do Filho de Deus feito homem. Depois de aludir brevemente à experiência e aos anseios do povo de Israel no tempo de Jesus, Maria do Rosário Soveral referiu que «a identificação de Jesus de Nazaré com o Cristo de Deus é fruto da experiência existencial que os apóstolos fazem da ação salvífica de Deus e da gratuidade divina em Jesus». Socorrendo-se do Catecismo da Igreja Católica, pôde de seguida explicitar essa identificação a partir da confissão cristã, segundo a qual «Jesus de Nazaré, judeu nascido duma filha de Israel em Belém […] é o Filho eterno de Deus feito homem». 

A conferência gravitou sucessivamente em torno de três eixos temáticos: Cristo, criador, redentor e consolador; A pregação de Jesus e a novidade do Reino de Deus; A paixão e a descida aos infernos. Pertencendo Jesus Cristo à essência eterna de Deus, a confissão cristológica parte da Trindade na perspetiva da economia da salvação. Cristo é nesse sentido primogénito de toda a criação, redentor do gênero humano, «revelação de Deus para, pela encarnação, reconduzir à plenitude da comunhão uma humanidade reconciliada e redimida». No núcleo da mensagem de Jesus encontra-se o anúncio do Reino, «uma realidade já presente no mundo», mas que «acontecerá em plenitude como dom absoluto no fim dos tempos», para que abre o próprio mistério pascal. A Páscoa de Cristo foi vivida como entrega obediencial à vontade do Pai, constituindo-se como horizonte de compreensão para o cristão das experiências de morte e de luto quotidianos. A paixão de Cristo e a sua experiência da morte humana, dita na descida aos infernos, realizam a plenitude da sua missão redentora. Assim irrompe uma nova criação, um tempo novo, porquanto «a descida aos infernos proclama a vitória de Cristo sobre a morte e é manifestação da sua glória». À conclusão da conferência seguiu-se um tempo de diálogo entre os presentes e a conferencista propício ao esclarecimento e ao comentário da apresentação feita.

A segunda fase do ciclo, cruzando teologia e iconografia, reabriu em 11 de março de 2014 com uma conferência de Adélio Fernando Abreu, diretor do CCC, sob o título Cristo confessado e representado na Idade Antiga. A conferência deteve-se no modo como os cristãos refletiram e entenderam a pessoa de Jesus ao longo dos cinco primeiros séculos da era cristã e na forma como a representaram iconograficamente. Ao longo dos primeiros três séculos, quando o cristianismo se desenvolveu no seio do império romano pagão, num quadro de ilicitude, feito de perseguição ou de tolerância, consoante as fases, Jesus Cristo foi refletido e representado como salvador e mestre/filósofo: foi tido como salvador nas alusões ao paraíso de uma vida idílica e pastoril; foi ainda o mestre que ensina a verdadeira doutrina da salvação, num contexto de confronto/diálogo com a filosofia pagã.

Depois de evocar as cristologias dos principais movimentos heréticos primitivos e de apresentar com detalhe a teologia sobre Cristo na evolução dos debates trinitário e cristológico dos séculos IV e V, animados pelas escolas de Alexandria e Antioquia, a conferência apontou também algumas ressonâncias destes debates na iconografia paleocristã. Na sequência da definição do Concílio de Calcedónia, relativa à união sem confusão das duas naturezas de Cristo, em resposta ao monofisismo, a arte não deixou de confessar a consciência da autêntica e real humanidade de Cristo, revelada sobretudo no suplício da sua paixão e crucifixão, representação antes evitada e agora aceite. O equilíbrio expressivo das duas naturezas pôde encontrar-se na representação da ascensão ou da transfiguração, cenas a que o ocidente e o oriente recorreram ainda que com uma intencionalidade teológico-didática diversa: no ocidente era necessário afirmar as duas naturezas de Cristo no confronto com o arianismo, que secundarizara ou negara a divindade de Cristo; no oriente exigia-se a afirmação das duas naturezas no confronto com o monofisismo, que considerara apenas a sua divindade.

A segunda fase do ciclo concluiu-se a 1 de abril de 2014 com a projeção do documentário O rosto de Jesus na arte, que alarga ao arco temporal da história do cristianismo a abordagem da representação iconográfica de Jesus.