Ciclo de conferências: O ano da fé - 2012/2013

 

A Fé Professada

 

O salão nobre o Centro de Cultura Católica do Porto encheu-se na noite de terça-feira, 6 de novembro de 2012, para a primeira conferência do ciclo O Ano da Fé. Foi conferencista o P. Emanuel Brandão, doutor em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, pároco de Valadares (Vila Nova de Gaia) e professor no Centro. O Ciclo de conferências foi programado a partir dos eixos temáticos do Catecismo da Igreja Católica, cujos 20 anos de publicação se celebram este ano.

Depois de uma breve palavra de acolhimento do diretor do Centro, P. Adélio Abreu, que contextualizou o ciclo de conferências e apresentou o conferencista, o P. Emanuel Brandão refletiu com os presentes sobre A Fé professada. Começou por explicitar o significado da fé, situando-a no âmbito da resposta à revelação divina, compreendendo-a assim como dom, no quadro da relação entre Deus e o homem: «Ter fé não é apenas acreditar num conjunto de verdades abstratas que nos são apresentadas pela Igreja. Nem a revelação divina significa apenas o desvelamento de verdades ainda não descobertas pelo homem, mas a própria autocomunicação ou autorrevelação de Deus que vem ao nosso encontro para nos fazer participantes da sua vida divina. Desta forma, ter fé é sentir-se interpelado pelo Absoluto e colocar a nossa vida nas suas mãos; é arriscar a vida em favor do reino divino. É saber que para além do mundo visível existe o mundo do invisível e do essencial. E assim como não conhecemos os outros humanos meramente através do conhecimento empírico, mas através da relação, da comunhão, da amizade e da convivência que mantemos com eles, também só penetramos no mistério de Deus e percebemos o seu amor através da comunhão de vida com Ele». Sublinhou depois também a dimensão eclesial da fé, que exige uma linguagem comum, que a todos una na mesma fé. Desta exigência saíram as formas sintéticas que ao longo da história exprimiram e exprimem a fé cristã e tomaram o nome de “Credo” ou “Símbolo da fé”.

Num segundo momento, o P. Emanuel Brandão percorreu no conteúdo e no comentário a exposição doutrinal do Catecismo da Igreja Católica, que servindo-se do Símbolo dos Apóstolos, continuamente remete também para o Símbolo de Niceia/Constantinopla. Resumiu o conteúdo essencial da fé cristã na fórmula: «Deus uno e trino, que no seu Filho Jesus assumiu a nossa natureza humana, para nos fazer participantes da sua vida divina». Explicitou depois o significado da profissão de fé em Deus Pai na relação com a criação, em Deus Filho na relação com a redenção, e no Espírito Santo, o santificador, que continua na história a vida divina que Cristo nos trouxe e age na Igreja fazendo dela um grande mistério de comunhão. O Credo termina com a proclamação da fé na ressurreição da carne e na vida eterna, qual «dedução radical da unicidade e senhorio universal de Deus», que não abandona na morte os que criou por amor.

As perguntas e respostas que se seguiram, enriquecendo a reflexão a partir dos diversos contributos, evidenciaram o interesse com que os presentes seguiram a conferência.

 

A Fé Celebrada

 

Decorreu na terça-feira, 4 de dezembro de 2012, a segunda conferência do ciclo O Ano da Fé, desta vez sobre A Fé celebrada, o segundo eixo do Catecismo da Igreja Católica. Interveio o Dr. João da Silva Peixoto, pároco de Ermesinde, membro do Secretariado Diocesano de Liturgia e professor desta disciplina no Centro.

Dedicou um primeiro momento à evocação de dois acontecimentos revelantes que no dia da conferência se comemoravam: o encerramento do Concílio de Trento, em 1563; e a última votação do projeto de constituição sobre a liturgia do II Concílio do Vaticano, em 1963. Estas evocações deram-lhe oportunidade para referir sumariamente o contributo de ambos os concílios nomeadamente no que à liturgia diz respeito. Trento, no quadro das discórdias doutrinais e disciplinares decorrentes do protestantismo, pôde clarificar a teologia dos sacramentos, nomeadamente da eucaristia. Ao tempo, porém, não foi possível levar por diante a reforma da liturgia católica, que se degradara em práticas herdadas da Idade Média, eivada de clericalismo, distanciada do povo cristão, que nela tomava parte de forma cada vez mais exterior e alheada, vendo-se obrigado a orientar a sua piedade para práticas alternativas, devocionais, inferiores às ações sacramentais, que são obra de Deus e da Igreja.

O II Concílio do Vaticano começaria precisamente pela reforma litúrgica. Se os vários esquemas de documentos da preparação do concílio não correspondiam ao desígnio de um concílio pastoral desejado por João XXIII, o esquema sobre a liturgia – a futura constituição Sacrosanctum Concilium – foi o único a ter boa aceitação e a ser aprovado. A comissão preparatória, coordenada por Annibale Bugnini, fora capaz de contabilizar a favor da reforma geral da liturgia o saldo de 60 anos de movimento litúrgico, preparando o terreno e as mentalidades. A constituição litúrgica influenciaria o próprio rumo do concílio e veio a frutificar nos seus grandes princípios: a atualização do mistério pascal, a escuta da palavra de Deus, a manifestação da Igreja a si mesma.

O Dr. João Peixoto entrou depois diretamente no tema da conferência, a liturgia no Catecismo da Igreja Católica, sublinhando que nele se supera a visão tradicional dos sacramentos, abordados isoladamente na sua essência metafísica, sem ter em devida conta que são em primeiro lugar realidades litúrgicas, celebrações da Igreja. Os sacramentos continuam no presente a obra de Cristo, são “forças” que saem do corpo de Cristo para curar as feridas do pecado e conferir a sua vida nova. Sublinhou depois que a catequese litúrgica não está circunscrita à segunda parte do Catecismo, mas se encontra difusa por toda a obra: a liturgia é o húmus da profissão de fé e da vida de fé. Profissão de fé, celebração da fé e confissão da fé são realidades reciprocamente imanentes e inseparáveis, que, nas suas polarizações, resultam num todo dinâmico e unificado. A confissão da fé encontra o seu justo lugar na celebração do culto. O lugar da confissão da fé é a liturgia, que por sua vez requer a profissão da fé. O dado litúrgico aparece depois também a propósito da catequese moral. O ser cristão é constituído e permanentemente sustentado pela graça sacramental, e o agir do cristão parte da transformação da existência e aponta para uma conformação existencial coerente.

A conferência incidiu em seguida na liturgia como história da salvação em ato, a partir da segunda parte do catecismo. O Catecismo conhece a catequese litúrgica, que não se confunde com a catequese na liturgia. Aquela parte do visível para o invisível, do significante para o significado, dos sacramentos para os mistérios. A história da salvação é o ponto de partida para a descrição da natureza profunda da liturgia. Tudo arranca do libérrimo desígnio de Deus que quer estabelecer relações de comunhão com a humanidade ferida pelo pecado; desígnio que se revela e realiza na história culminando em Cristo e na sua Páscoa.

De singular importância é o capítulo relativo ao mistério pascal no tempo da Igreja, que expõe a liturgia como obra da Santíssima Trindade. Segue a ordem da economia divina, apresentando sucessivamente o Pai como fonte e fim da liturgia, a ação de Cristo na liturgia e o Espírito Santo e a Igreja na liturgia. Ao tratar da intervenção do Pai na liturgia, o Catecismo faz uma panorâmica da história da salvação, vista em torno do conceito de bênção, na dupla aceção descendente e ascendente. Mas, numa visão cristocêntrica, o Catecismo afirma também que a liturgia é ação de Cristo que nela realiza o seu mistério. Ela coloca-nos perante o Cristo ressuscitado e glorioso que está presente na liturgia terrestre, a qual participa na liturgia celeste, sublinhando a centralidade do mistério pascal na sua valência histórica e escatológica. Após desenvolver a presença do Pai e do Filho na liturgia, o Dr. João Peixoto referiu-se à dimensão pneumatológica da liturgia. Se é certo que os documentos eclesiais no ocidente, em contraponto com a tradição oriental, foram muitas vezes pneumatologicamente pobres – acusação que inclusivamente foi feita à Sacrosanctum Concilium –, o Catecismo oferece uma reflexão original, apresentando o Espírito Santo como pedagogo da fé do povo de Deus, artífice das obras-primas de Deus que são os sacramentos. Na liturgia o Espírito Santo atua no mesmo modo dos outros tempos da história da salvação: prepara para acolher Cristo, recorda e atualiza o mistério de Cristo, une a Igreja à sua vida e missão.

No fim, emergia das conversas dos presentes o interesse da reflexão para uma mais consciente celebração da fé.

 

A Fé Vivida

 

O auditório do Centro de Cultura Católica do Porto recebeu na noite de terça-feira, 8 de janeiro de 2013, a terceira conferência do Ciclo O Ano da Fé, programado a partir dos grandes eixos temáticos do Catecismo da Igreja Católica. Foi conferencista o Doutor Jorge Teixeira da Cunha, diretor-adjunto da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, onde leciona Teologia Moral, que abordou o tema A Fé vivida.

Começou por interrogar-se sobre o sentido da expressão “Fé vivida”, que permite referir a vida moral pensada a partir da vida, da ação, na alusão a dois contextos: a espiritualidade e o vivido moral. Apesar de terem andado muitas vezes separadas, a espiritualidade e a moral são dois aspetos da mesma realidade. Não foi assim no passado, quando a moral se fixava nos atos à luz da norma, como se fosse uma arte de escapar à tentação. Era a conceção do catolicismo tridentino centrado nas obras, em contraposição à sola fides protestante. A vida em Cristo e a vida moral separaram-se uma da outra e pensou-se que o ser humano pudesse fazer o bem apenas pelas próprias forças.

O II Concílio do Vaticano, nomeadamente no n. 16 do decreto Optatum Totius aconselhou a Igreja a pensar a moral de maneira nova: «Ponha-se especial cuidado em aperfeiçoar a teologia moral, cuja exposição científica, mais alimentada pela Sagrada Escritura, deve revelar a grandeza da vocação dos fiéis em Cristo e a sua obrigação de dar frutos na caridade para vida do mundo». A moral é pois a sublimidade da vida em Cristo.

Na convicção de que Jesus Cristo ensinou mais do que uma moral de atos bons e maus, o conferencista procurou definir a moral em três aspetos. Em primeiro lugar, a moral é uma proclamação da vida boa com os outros e para os outros dentro da instituição justa. A vida boa é a vida em Cristo, que representa para os seus discípulos, a partir do seu chamamento, o acesso da existência. Jesus dá aos discípulos a ideia do que é uma vida verdadeiramente humana. Em segundo lugar, a moral é também uma norma de vida. Cristo deu a vida boa, mas também a possibilidade da pessoa não se perder. A norma da moral é a força de perseverar no alinhamento do coração com a fonte da vida. A norma ou a virtude é a força interior de não falhar o alvo, a vida em Cristo. Em terceiro lugar, a moral é uma sabedoria prática. Jesus também ensinou a arte de deliberar, de decidir. Fê-lo, por exemplo, quando, calado, se salvou a ele e salvou a mulher no episódio da mulher adúltera. Ou até na evolução da sua capacidade de deliberar, evidenciada no episódio da mulher cananeia do evangelho, que lhe pede a cura da sua filha.

A assimilação da vida em Cristo passa, em primeiro lugar, pelo cultivar de uma atitude e, em segundo lugar, pelo cultivar de novos comportamentos. Uma atitude é a força que justifica e desenvolve comportamentos. A atitude é o estilo de vida, a coerência, a estabilidade desenvolvida pela pertença a Cristo. Ela é feita da empatia com a vida em Cristo, resultante da frequência da Palavra de Deus, dos sacramentos, do desenvolvimento de uma educação moral. A atitude é feita de empatia, mas também da inteligência e da vontade. A moral trata ainda de comportamentos, em que se reflete a atitude. Quem se consolida numa atitude é mais estável e menos dado à queda.

Para concluir, o Doutor Jorge Cunha referiu que O Catecismo da Igreja Católica não é um repositório da vida moral. É um repositório das normas, para que a pessoa não se perca na vida moral. A vida moral não se esgota no Catecismo. Este é um guia. O alvo é Cristo.

No termo da conferência, as várias perguntas trouxeram para um plano mais concreto os princípios antes refletidos.

 

A Fé Rezada

 

O ciclo de conferências O Ano da Fé, organizado pelo Centro de Cultura Católica do Porto, a partir dos grandes temas do Catecismo da Igreja Católica, encerrou-se no dia 5 de fevereiro de 2013. A conferência sobre A Fé rezada foi confiada a Maria do Rosário Soveral, doutora em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e professora no Centro. Sob o mote Oração, uma sinfonia incompleta, dissertou sobre a oração em jeito meditativo, juntando à sua reflexão a voz dos padres da Igreja, dos poetas e dos místicos.

Partiu da constatação que a comunicação virtual do nosso tempo desvirtuou a comunicação interpessoal com repercussões na experiência orante. A expetativa da melhor performance e a atividade constante conduzem à desvalorização da pausa, do lazer, da contemplação e do silêncio, constitutivos na natureza profunda do ser humano. Mas continuam a pulsar no homem a sede de transcendência e a busca de sentido, de modo que, num mundo de cisões, cada homem transporta a saudade do Mistério. Reportando-se ao Catecismo, que define a fé como «resposta do homem a Deus, que a ele Se revela e Se oferece, resposta que, ao mesmo tempo, traz uma luz superabundante ao homem que busca o sentido último da sua vida», Maria do Rosário Soveral abordou a relação fé/oração, sublinhando a dimensão relacional do ato de fé, distinto do saber teológico fundamentado em provas. Concluiu assim que da fé nasce a oração com uma intencionalidade finalizada em Deus.

A oração foi também refletida enquanto personalização da vida teologal. Por ela se articulam a fé, a esperança e a caridade, em união a Cristo e na Igreja. É ainda expressão existencial do desejo de Deus, permitindo ao ser humano conjugar a plenitude da abertura ao infinito e ao absoluto com a finitude do perder e do morrer, na experiência do abandono contida na fé que reza. A conferência reportou-se, por último, à relação fé/vida, referindo que a experiência orante pode levar o homem a encontrar um novo sentido para o trabalho e o lazer, enquanto orientados para a expressão da transcendência e a procura de plenitude que se encontra em Deus.

Depois de um tempo de diálogo entre o auditório e a conferencista, o P. Adélio Abreu, diretor do Centro, encerrou a sessão e o ciclo de conferências, anunciando para maio/junho um outro ciclo, sobre os novos Doutores da Igreja proclamados por Bento XVI em outubro de 2012: Santa Hildegarda de Bingen e São João de Ávila. Quando anunciou a proclamação no Angelus de Pentecostes de 2012, o papa ressaltou a grandeza do testemunho de fé de ambos e o facto de serem perenemente atuais pela santidade de vida e profundidade de doutrina. Justifica-se assim, no decurso do Ano da Fé, este novo ciclo, ainda em programação, que contará com duas intervenções (7 de maio e 4 de junho, das 21 às 22 horas) de Alexandre Freire Duarte, formado em Teologia espiritual pela Universidade Pontifícia Comillas, em Madrid.