Pastoral da Saúde - entrega de diplomas dos cursos III e IV - abertura do Curso V - 11 de Fevereiro de 2009

 

O Sofrimento e o Amor em São Paulo

 

O Auditório da Casa Diocesana de Vilar acolheu, na noite de 11 de fevereiro, cerca de quinhentas pessoas, na sua grande maioria participantes nos diversos Cursos de Pastoral da Saúde que o Centro de Cultura Católica, em colaboração com o Secretariado Diocesano desta área pastoral tem vindo a desenvolver. Foi a Jornada do Dia Mundial do Doente, presidida pelo Bispo D. António Taipa. Na mesa, para além de alguns membros do SDPSaúde, também estiveram presentes o Diretor do Centro de Cultura Católica, a Coordenadora da Fraternidade Cristã de Deficientes Físicos e Doentes Crónicos, os presidentes da Associação de Médicos Católicos e da Associação Católica de Enfermeiros e Profissionais de Saúde e um elemento da Coordenação da Pastoral Universitária do Porto-Saúde. Também aí estiveram o Doutor José Carlos Carvalho, biblista docente da Faculdade de Teologia da UCP no Porto e a Profª Enfª Teresa Tomé Ribeiro, responsável pelo Curso de Educação da Sexualidade.

Nesta noite, dois Cursos chegaram ao seu termo e um iniciava o seu caminho, sob a responsabilidade direta da Prof.ª Enf. Isabel Ribeiro, coordenadora do departamento de formação do SDPSaúde: perto de duas centenas de formandos concluíram os seus Cursos de Pastoral da Saúde na valência de Ministros Extraordinários da Comunhão ou no âmbito Educação da Sexualidade, recebendo os seus diplomas, e perto de três centenas foram aqueles que iniciaram o Curso na valência de visitadores de doentes. O Diretor do Centro de Cultura Católica, P. Adélio Abreu, realçando que esta instituição é aquela «que na diocese do Porto se ocupa prioritariamente da formação do laicado», enalteceu «a descoberta da importância da formação para esta área da vida pastoral na diocese do Porto». Informou a assembleia dos números exatos: «Desde 2004 e até ao presente são já cerca de 280 formandos os que frequentaram os Cursos de Pastoral da Saúde promovidos pelo Secretariado Diocesano de Pastoral da Saúde e pelo Centro de Cultura Católica. O número cresceu exponencialmente com os cursos que agora terminam: o Curso de Pastoral da Saúde IV, de formadores no âmbito da educação da sexualidade, frequentado por 45 alunos, 44 dos quais com aproveitamento; e sobretudo o III Curso frequentado por 139 formandos (33 no polo de São da Madeira; 62 no polo do Porto; 44 no polo de Paredes), 128 dos quais com aproveitamento». Acrescentou que «este curso, realizado no Porto, em São João da Madeira e em Paredes, concretizou o início da descentralização da formação para melhor atingir todas as áreas da diocese, agora continuada com o Curso de Pastoral da Saúde V, para visitadores de doentes, que hoje se inicia, a realizar no Porto, São João da Madeira, Marco de Canaveses e Santo Tirso, um polo em cada uma das quatro regiões pastorais entretanto criadas. Até ao presente – informou – os Cursos de Pastoral da Saúde já foram frequentados por formandos oriundos de 123 paróquias da diocese».

O decorrer da noite foi marcado pelo testemunho de uma das Ministras Extraordinárias da Comunhão que frequentou o Curso em circunstâncias de vida pessoal e familiar marcadas por perdas e grande sofrimento, Augusta Fernandes: «Tive a resposta às minhas interrogações e aprendi a aceitar com amor as contradições da vida. Para melhor exercer a minha missão concluí: como cristã e M.E.C. não me posso satisfazer com a ideia de ter cumprido a minha missão ao distribuir a comunhão a uma ou várias pessoas doentes ou idosas. Mais do que isso devo desprender-me de mim, entregando-me à necessidade daqueles que precisam; estar disponível, sem pressas, de coração aberto para os escutar, amar e os reconhecer como eles são. E para isso preciso de ser humilde e sensata para os respeitar e aceitar sem juízos».

Seguiu-se a conferência do Doutor José Carlos Carvalho sobre O Sofrimento e o Amor em S. Paulo. Iniciou a sua intervenção referindo-se à perceção da doença na cultura contemporânea e estabelecendo um paralelo entre a cultura erotizada do mundo greco-romano do tempo de Paulo e a atual. Depois de aludir ao modo como os pensamentos estoico e epicurista encaram o sofrimento, evidenciou a tendência gnóstica do estoicismo para a conquista do espírito, em contraste com a mundividência paulina que entende o Espírito como dom. Este contraste repercute-se no modo de entender o sofrimento. Enquanto o homem estoico «abeira-se do doente não porque seja seu irmão mas porque lhe quer transmitir um conjunto de ensinamentos ao entendimento», a antropologia paulina «necessita da envolvência de todas as dimensões e de todos os planos nos quais se diz a existência humana como tal», deixando «transparecer a lógica interna analogada que a fé cristã encontra na relação entre a saúde, a condição salutar e a salvação» e obrigando «a passar pela indagação esperançosa do sentido». Transpondo estas considerações antropológicas para a questão do sofrimento, afirmou: «Os nossos doentes colocam-se exatamente no meio de uma existência sofrida que pede ser acabada. Para tal pedem não apenas os tratamentos farmacológicos mas os paliativos do futuro, da esperança e do amor, ou seja, do sentido. […] O doente é assim envolvido por um sentimento de piedade, de não indiferença, mas igualmente imerso na pascoalidade exodal humana, no anelo de transcendência, e aberto à possibilidade da relativização e da esperança, logo capaz de ser amado. Por aí Paulo chama à reconstrução da vida».

Após a conferência, foi investida pelo Bispo presente a Comissão Executiva que preparará a Peregrinação Lc 5, 15, versículo deste evangelista que diz: «A notícia sobre Jesus difundia-se cada vez mais, e acorriam numerosas multidões para O ouvir e serem curadas das suas enfermidades». Este acontecimento, que integrará a Grande Missão 2010, pretende «em Nova Evangelização, congregar e integrar na Missão, porque são Povo de Deus, todos os que a cultura do tempo afirma sem valor e vivem a experiência do sofrimento, por doença, deficiência ou peso dos anos», como referia a mensagem amarrada às 500 flores de papel amarelas que, em cestas, foram entregues aos membros da Comissão Executiva da Peregrinação por D. António Taipa. Esta comissão, a trabalhar já desde Outubro, é presidida por Américo Azevedo, doente crónico e deficiente físico que integra o SDPSaúde. Deste órgão fazem parte, para além de vários membros deste Secretariado, também a Enfª Eufémia Rodrigues, vice-presidente, os Presidentes ou Coordenadores dos Secretariados da Pastoral Familiar e da Pastoral Social, das Associações de Doentes e de Médicos, Enfermeiros e Profissionais de Saúde Católicos, das Conferências Vicentinas, do Movimento Fé e Luz, do Corpo Nacional de Escutas e representantes de cada um dos polos do Curso que encerrava. Foram estes que, no final, na porta do auditório, entregaram a cada um uma flor, para que cada um se sentisse investido na condição de agente do processo da Peregrinação dos doentes, deficientes e idosos de Maio de 2010.

Nas palavras com que encerrou a noite, já bem tarde, D. António afirmou: «O Bispo é o que se aproxima e quer estar presente. Vós realizais no terreno aquela que é a missão do Bispo de se debruçar sobre os mais fragilizados». Apelando à intervenção inicial da Presidente do SDPSaúde, Dra. Rosário Rodrigues, reforçou: «A vossa presença aqui significa que a Igreja está viva... sois expressão da Caridade divina». Sublinhou, depois, aquilo a que chamou «convergência de Graça: os doentes, para nós, são presença de Cristo sofredor; nós, para eles, presença de Cristo consolador». Recuperou, ainda, palavras do Pe. José Nuno, para marcar: «Não entrais num curso, mas num percurso para, mais do que especialistas, serdes Presença». Felicitando os que acabavam e desejando persistência aos que iniciavam, o Bispo concluiu com estas palavras: «Missão! É necessário que a Cidade veja que a Igreja está presente aos excluídos».