Com a proclamação da República, em 1910, por efeito da Lei de separação do Estado das Igrejas, foi o Bispo do Porto, D. António Barroso, obrigado a abandonar o seu Paço, no Terreiro da Sé e a diocese acabou por alugar um palacete na Quinta de Sacais, situado na que é hoje a Avenida Camilo, em Fevereiro de 1913. Após forçado e prolongado exílio (de 07/03/1911 a 04/04/1914), D. António Barroso para ali se transferiu e ali veio a falecer no dia 31 de Agosto de 1918. O sucessor, D. António Barbosa Leão, foi nomeado por Bento XV, por Letras de 16 de Julho de 1919 fez a sua entrada solene na Diocese no dia 8 de Setembro seguinte e deu recepção no Paço de Sacais.

Entretanto, durante a Sé vaga, o Vice-reitor do Seminário, Dr. António Ferreira Pinto, anuncia, no Boletim da Diocese do Porto, que está aberta uma subscrição para a compra e reparações de uma casa que se destina a fins eclesiásticos para perpetuar a memória de D. António Barroso e como realização do (seu) pensamento e na resenha que faz a seguir, acrescenta: Pensava o falecido desde há muito no aluguer ou compra duma propriedade, que chegou a visitar em Julho, antes de morrer. Esta propriedade, que ficava situada em S. Cosme, foi adquirida então, juntamente com a casa da Torre da Marca, mas depois vendida quando foi comprada a casa da rua de Vilar.

A aquisição da Casa da Torre da Marca é assim descrita no referido Boletim: Por escritura de 20 de Junho (de 1919) foi comprada a casa da Torre da Marca, na rua do Triunfo, nº 286. Os três compradores constituíram seu procurador com amplos poderes, até para vender, o Rev. Dr. Ferreira Pinto que já cedeu, por longo arrendamento, uma parte ao Rev. Joaquim Ferreira Gomes, superior dos novos Seminaristas. Estes ficaram instalados nos dias 10 e 11 do corrente (Novembro). Conforme o desejo das Ex.mas Snr.as D. Mariana e D. Eugénia de Souza Holstein, o Rev. Dr. Ferreira Pinto celebrou a primeira missa no dia 10, que foi aplicada por alma dos falecidos Marqueses de Monfalim, tios das últimas possuidoras da propriedade referida… A outra parte do edifício é destinada a residência episcopal e repartições eclesiásticas, para onde mudarão no fim de Dezembro. Continuam as reparações e divisões indispensáveis, que, nas circunstâncias presentes, ficam caríssimas.

O Dr. Ferreira Pinto refere-se com mais pormenores à concretização desta transacção, no fascículo de Novembro de 1919, do mesmo Boletim: Ao Snr. Cónego Correia da Silva (futuro Bispo de Leiria) deve-se a feliz ideia da compra da casa e ao Snr. Cónego Pereira Lopes, indicações úteis para realizar a aquisição. À casa comercial do Snr. Comendador Domingos Gonçalves de Sá & Filhos devem os proprietários o empréstimo da quantia mencionada, sem juros, confiando apenas na palavra dos dois cónegos e em mim.

As obras de adaptação (soalhos novos, divisões importantes, estuques, pinturas e cal em toda a cãs, mobília escolar e outra) foram feitas com rapidez, graças ao esforço, boa vontade e trabalho nocturno dos artistas e foi possível inaugurar solenemente o Seminário, no dia 16 de Novembro de 1919, com missa rezada pelo Bispo na capela da casa e uma pequena sessão solene. O Vice-Reitor do Seminário, Joaquim Ferreira Gomes (tio do futuro Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes), sublinhou então a coincidência de, em Igual dia e mês de Há 35 anos, ter sido aberto o Seminário dos Carvalhos, com o mesmo número de Alunos (60). No dia 20 de Dezembro, ficaram instaladas as repartições eclesiásticas e no dia 21 deu entrada o Bispo do Porto, D. António Barbosa Leão.

Mas desde logo se chegou à conclusão de que a casa não poderia facilmente corresponder às exigências de Paço Episcopal e de Seminário de Estudos Preparatórios. Para além do problema funcional, também os espaços se revelavam exíguos porque, já nesse primeiro ano, não puderam ser atendidos muitos dos que requereram admissão.

Em 7 de Maio de 1922, D. António Barbosa Leão, representado na escritura pelo Padre Joaquim Ferreira Gomes, comprou à Ordem da Visitação de Santa Maria o edifício, na Rua de Vilar, que, depois de ter sido o Colégio da Visitação, fora esbulhado pela Revolução de 1910 e transformado em quartel do 31 de Infantaria e, entretanto, restituído. Aqui foi inaugurado, em 15 de Novembro desse ano de 1922, o Seminário de Vilar, transitando para ali os alunos da Casa da Torre da Marca.

Paço Episcopal

Desde os finais de 1919 até 1964, a Casa da Torre da Marca passou a ser, portanto, residência dos Bispos do Porto, D. António Barbosa Leão, D. António Augusto de Castro Meireles, D. Agostinho de Jesus e Sousa e D. António Ferreira Gomes, aqui funcionaram também os serviços da Cúria Episcopal.

Para além das reparações e adaptações feitas logo após a compra, a casa beneficiou de obras de certo vulto nos anos trinta a quinta foi amputada de alguns terrenos, em 1934, para a abertura do início da Rua de Júlio Dinis. Em 1964, o Paço regressou ás suas antigas instalações, no Terreiro da Sé, quando a Câmara Municipal do Porto, que as havia ocupado, foi transferida, em 1956, para o edifício actual no cimo da Avenida dos Aliados. Iniciadas as necessárias obras de adaptação sob o governo de D. António Ferreira Gomes, a transferência processou-se sob a administração apostólica de D. Florentino de Andrade e Silva, por impedimento do Bispo que se encontrava no exílio por motivos políticos (de 1959 a 1969).

Centro de Cultura Católica

O Administrador Apostólico, em Nota da Secretaria Episcopal de 20 de Julho de 1964, deu a conhecer a sua intenção de fazer da Casa da Torre da Marca, que iria ficar desocupada, um centro de irradiação da cultura católica, principalmente para o laicado e, em Outubro seguinte, começou ali a funcionar o Centro de Cultura Católica, que tem procurado assegurar uma formação teológica de nível médio, através de cursos regulares, cursos especiais ou intensivos, bem como através de ciclos de conferências, de colóquios e mesas redondas a propósito de efemérides importantes da vida da Igreja ou da cidade dos homens, para melhor conhecer os documentos do magistério ou interpretar os sinais do tempo, em diálogo da fé com a cultura. Após as obras de remodelação em curso está previsto concentrar aqui, além do Curso Básico de Teologia e do Curso Básico de Ciências Religiosas, também os Cursos Geral e Complementar para a formação de Catequistas e a Escola Diocesana de Ministérios. A Casa da Torre da Marca passará assim a assegurar uma formação de nível médio a todos aqueles que pretendam adequar a cultura religiosa ao grau da sua maturidade intelectual e ao desempenho dos diversos ministérios ou outras funções que lhes vierem a ser confiadas na Igreja.

Fundação Spes

Numa das alas da Casa da Torre da Marca foi inaugurada, em 13 de Junho de 1995, a sede da Fundação Spes, criada, por vontade de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto de 1952 a 1982, expressa no seu testamento, para promover a formação e desenvolvimento intelectual dos adultos que se queiram cristãos para o desenvolvimento de uma civilização da Beleza e do Amor, objectivos a atingir através de uma biblioteca e de conferências e cursos na área da filosofia, sociologia e teologia, destinados a pessoas formadas, e regidos por mestres eminentes, podendo depois ser publicados em livro.

O Edifício da Torre - O Edifício do Palácio

AO serviço da Igreja do Porto