Sessão Solene de Início do Ano Letivo 2012/2013

 

 

 

 

Concílio Vaticano II: Novidade e receção, na conferência do Prof. Arnaldo de Pinho

O auditório do Centro de Cultura Católica do Porto encheu-se no sábado 20 de outubro de 2012, pelas 14.30 horas, para a sessão solene de abertura do ano letivo 2012/2013. Foi presidida por D. Pio Alves, bispo auxiliar do Porto, e contou com a presença de vários professores e alunos, atuais e antigos, a que se juntaram outras pessoas que a conferência evocativa do II Concílio do Vaticano trouxe ao Centro.

A sessão iniciou-se com a invocação do Espírito através do canto do Veni Creator Spiritus pelo Coro da Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos, dirigido por António Mário Costa. Seguiram-se algumas palavras de acolhimento do P. Adélio Abreu, diretor do Centro, que enquadrou a sessão e o ano letivo no âmbito do lema “Redescobrir o caminho da fé”, inspirado na carta apostólica Porta Fidei, relativa ao Ano da Fé. Apresentou também a situação do Centro, que no ano que começa conta com cerca de 30 professores e 241 alunos, distribuídos pelos diferentes cursos: Básico de Teologia - 75 alunos; Complementar de Formação de Catequistas - 2; Música Litúrgica (Preparatório, Geral e Salmistas) - 68; Acólitos - 8; Leitores – 11; Curso “Acolher Acompanhar” – 55; Curso de Educação da Sexualidade - 22. Agradeceu ainda a colaboração dos secretariados diocesanos, a dedicação dos professores e a confiança que várias comunidades da diocese depositam no Centro, sublinhando a atitude daquelas que, na atual conjuntura económica difícil, mantêm como prioridade a formação dos seus membros.

No contexto do cinquentenário do Concílio, seguiu-se uma conferência subordinada ao título “Concílio Vaticano II: Novidade e receção”, proferida pelo Prof. Arnaldo de Pinho, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica no Porto. Num primeiro momento, situou o Concílio no contexto da modernidade cultural, filosófica e política, que começou afirmar-se na Europa a partir do iluminismo, caraterizada pela emancipação da razão do controlo da teologia e das autoridades. No quadro da modernidade, o II Concílio do Vaticano, ao contrário dos anteriores, não se fez para manter a unidade eclesial contra nenhuma heresia, nem veio defender a Igreja das confusões do racionalismo em relação ao dogma católico, como ocorrera no Vaticano I, mas enveredou por uma atitude de diálogo sincero com a cultura moderna, visível sobretudo em três pontos de convergência da síntese conciliar: a liberdade religiosa, a centralidade antropológica e a perspetiva escatológica. Aceitando a liberdade religiosa, a Igreja encontrou-se com um dos aspetos fundamentais da mentalidade moderna, permitindo-lhe assumir o seu papel perante a história, sem que fosse banida das sociedades. O Concílio também assumiu a centralidade antropológica, nomeadamente na “Gaudium et Spes”, partindo não de Deus para o homem, mas do homem para Deus através de Cristo. Citando o cardeal Duval, o conferencista referiu que para que o mundo compreenda a proposta cristã é necessário partir das aspirações, das angústias e dos sofrimentos dos homens do nosso tempo. A perspetiva escatológica marcou presença nos grandes documentos no Concílio, pela leitura da tradição na fidelidade a alguns vetores: a consciência renovada da natureza e da missão da Igreja, a abertura a uma cultura ecuménica e o diálogo com o mundo contemporâneo. Foi abandonada a eclesiologia imperial e iluminista, que entendia a Igreja como sociedade perfeita, cortando as pontes com o mundo, para a definir como «Igreja sinal, primariamente local, povo entre os povos, com capacidade para se inculturar, comunhão que rejeita o poder e a união ao poder». Foi sublinhado o diálogo ecuménico e inter-religioso, assim como o diálogo com o mundo moderno, superando as antigas condenações. O restauracionismo contra a modernidade foi abandonado e a autoridade tem de legitimar-se como condição de possibilidade da liberdade.

Num segundo momento, o Prof. Arnaldo de Pinho abordou a receção conciliar, sublinhando a complexidade da questão e a necessidade de olhar a evolução da história de maneira modesta, e dizendo que o Concílio não pode ser entendido como um código a aplicar, como fazem os fundamentalistas conservadores ou progressistas. Num olhar abrangente, referiu que na história da Igreja houve três grandes reformas, uma delas assinalada pelo Vaticano II: a reforma gregoriana (séc. XI), a protestante e tridentina (séc. XV-XVI) e a reforma vaticana. Entre elas há aspetos coincidentes: a necessidade de mudança no paradigma de Igreja, a necessidade de um programa pastoral e a intervenção de um líder. Mas há também especificidades, nomeadamente o contexto de unidade subjacente ao Vaticano II e a ecumenicidade da assembleia, visível na representatividade das Igrejas de todos os continentes. Quanto aos frutos do Concílio, num primeiro momento evidenciaram-se na reconciliação com o mundo moderno, depois de tempos de fechamento e de confronto, e no diálogo ecuménico. Àqueles que criticam os frutos do Concílio, centrados em problemas da Igreja ad intra e esquecidos do essencial, o Prof. Arnaldo de Pinho entende que seria necessário perguntar-lhes: «Sem esta reconciliação com o mundo moderno […] como iria viver a Igreja num mundo multicultural e pluralista? Como iria influenciar positivamente as chamadas democratizações católicas que aconteceram em alguns países da Europa e das Américas? Como se iria dar com as democracias abertas que aumentaram e não cessam de aumentar? Como seria capaz de encetar um verdadeiro diálogo inter-religioso com as grandes tradições doutrinais, com os princípios herdados de Santo Agostinho e da escolástica tardia, ainda repetidos e ensinados até meados do séc. XX sobre a verdadeira religião?». Se num primeiro tempo o ecumenismo gerou muito entusiasmo, vindo, contudo, a verificar-se que a unidade eclesial ainda não era possível, foi posteriormente ganhando relevância o diálogo com as religiões não cristãs, particularmente importante para a Igreja em países em que é minoria e em que precisa de inculturar-se. A partir destes elementos, o conferencista concluiu que o Concílio não é de facto um código a aplicar, mas uma referência ou uma fonte de inspiração para a Igreja do nosso tempo.

Finda a conferência, D. Pio Alves entregou os diplomas aos alunos que terminaram os seus cursos no último ano letivo. Terminaram o Curso Básico de Teologia os seguintes alunos: Álvaro Francisco Loureiro Pinto de Sequeira (Milheirós, Maia); Belmiro dos Santos Patrício (Nossa Senhora da Ajuda, Porto); Carlos Alberto Inês da Fonseca Martins (Valongo); Djalma Pinto de Sá Mocoso Marques (Oliveira de Azeméis); Fernando Ferreira Rodrigues da Conceição (Sobrado, Castelo de Paiva); João António Oliveira Araújo (Oliveira de Azeméis); Joaquim da Silva Bandeira (Jovim, Gondomar); José Agostinho Carvalho Moreira (Leça da Palmeira, Matosinhos); José Manuel Rodrigues Gonçalves (Leça da Palmeira, Matosinhos); Maria da Conceição dos Santos carvalho (Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora); Maria de Fátima Tchilombo (Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus); Mário Henrique Pinto dos Santos (São Lourenço do Douro, Marco de Canaveses); Paulo de Carvalho Cardoso (Régua); Raúl de Magalhães Borges (Leça da Palmeira, Matosinhos); Sandra Suzete Armando Pelele (Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus). Terminaram o Curso de Acólitos os seguintes alunos: Ana Patrícia Almeida Rodrigues (Oliveira de Azeméis); André Filipe de Sousa Freire (Fânzeres, Gondomar); David Francisco Pinto Barbas (Recarei, Paredes); José Carlos Pereira de Sousa (Serzedo, Vila Nova de Gaia); Maria La-Salete Pinheiro Oliveira (Serzedo, Vila Nova de Gaia). Terminaram o Curso de Leitores os seguintes alunos: Jorge Miguel Carvalho Nunes (Aldoar, Porto); José Alberto da Silva (Antas, Porto); Maria José Dores Gouveia (Aldoar, Porto). Terminou o Curso de Música Litúrgica Luís Carlos Sousa e Silva (Macieira da Lixa, Felgueiras).

D. Pio Alves fez então uso da palavra para agradecer e incentivar: agradecer o trabalho e a intensa oferta formativa do Centro; incentivar a continuidade da formação, na consciência de que um título de estudos é sempre o fim de uma etapa e não uma meta final. Também leu e comentou o n. 10 da carta apostólica Porta Fidei sobre a permanente necessidade de formação e conhecimento dos conteúdos da fé, afirmando que «a fé não é mera conclusão lógica de um processo racional, mas implica a razão na sua preparação e no seu posterior e progressivo aprofundamento». A fé, como ato de amor que é, para ser verdadeiramente um ato humano, implica conhecimento e a vontade posterior de conhecer mais e mais Aquele a quem se ama, Aquele em quem acreditamos». O texto pontifício insiste, pois, «na redescoberta da relação pessoal de cada um de nós com Deus em Jesus Cristo, mas insiste também com toda a lógica na necessidade de continuarmos a cuidar da formação em todas as suas dimensões». Reconhecendo que as matérias oferecidas nos vários cursos do Centro podem ajudar a fazer o enquadramento da adesão pessoal a Jesus Cristo, D. Pio Alves concluiu agradecendo o esforço e disponibilidade dos formandos e o apoio das comunidades, felicitando os que terminaram uma etapa da sua formação e desejando que a oferta formativa do Centro «continue a ser uma realidade cada vez aproveitada por mais e mais pessoas da nossa diocese».

A sessão solene foi encerrada com uma breve participação musical dos alunos do Curso de Música Litúrgica. O coro da escola cantou o coral final da Paixão segundo São João de J. S. Bach (“Ach Herr, laß dein lieb Engelein”) e “Alegra-te ó Jerusalém” de A. Ferreira dos Santos.