Sessão Solene comemorativa do cinquentenário do CCC - 25 de outubro de 2014

 

 

 

 

Centro de Cultura Católica, uma escola de comunhão para a missão e de missão para a comunhão

O Centro de Cultura Católica (CCC) cumpre 50 anos no ano letivo 2014/2015. Foi criado em 1964 por D. Florentino de Andrade e Silva, administrador apostólico, para ser «um centro de irradiação da cultura católica, principalmente para o laicado». Viviam-se os tempos entusiásticos do Concílio, com a valorização duma eclesiologia de comunhão, integradora de todo o Povo de Deus, designadamente do laicado.

Para comemorar este cinquentenário e o início de mais um ano letivo, realizou-se no sábado, 25 de outubro, uma sessão solene, que encheu o auditório da Casa da Torre da Marca, sob a presidência de D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto. Compareceram vários professores e alunos, do presente e do passado, a que se juntaram familiares e membros das comunidades paroquiais, sobretudo daqueles que concluíram os seus cursos no ano letivo transato e neste dia receberam os seus diplomas. Também estiveram presentes representantes de alguns secretariados diocesanos.

Após a invocação Espírito Santo através do canto do Veni Creator Spiritus, pelo coro da Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos, dirigido por António Mário Costa, o P. Adélio Abreu, diretor do CCC, saudou os presentes e evocou sumariamente as suas cinco décadas de atividade, dirigido durante largo tempo pelo Cón. José António Godinho de Lima. Apresentou as diferentes áreas de formação, desde o Curso Básico de Teologia que, com nomenclaturas diversas, sempre estruturou a formação da casa, passando pelos cursos catequéticos e litúrgicos e por outras iniciativas mais breves e intensivas. Recordou os dois grandes momentos de reestruturação do CCC, o primeiro em 1975 e o segundo a partir de 2001, quando D. Armindo Lopes Coelho, no encerramento do Jubileu, se decidiu pela «criação oficial de uma Escola diocesana para a formação e para os ministérios dos Leigos», e entregou ao CCC essa missão, sob a direção do Cón. João da Silva Peixoto. O Curso Básico passou então a constituir o tronco comum de outros cursos ligados aos setores da pastoral diocesana, e a Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos, criada pelo Secretariado Diocesano de Liturgia em 1989, regressou a esta casa. Neste percurso histórico, referiu-se ainda ao dinamismo dos Cursos de Pastoral da Saúde a partir de 2004 e ao ajuste no currículo do Curso Básico de Teologia em 2008, de modo a corresponder às exigências de formação para o diaconado permanente.

Num segundo momento enquadrou a sessão e o ano letivo no âmbito do lema Formar para uma Igreja “em saída”, inspirado na exortação apostólica Evangelii Gaudium do papa Francisco, e apresentou a situação atual do CCC, que no ano que começa conta com cerca de 30 professores e 162 alunos, distribuídos pelos diferentes cursos: Básico de Teologia - 53 alunos; Complementar de Formação de Catequistas - 0; Acólitos - 11; Leitores – 7; Música Litúrgica (Preparatório, Geral e Salmistas) - 65. Acrescem ainda 28 alunos que só se encontram inscritos numa disciplina opcional, frequentada também por muitos outros, sobretudo do Curso Básico de Teologia.

Tendo o CCC sido criado no contexto conciliar principalmente em função do laicado, seguiu-se uma conferência do Cón. Alfredo Leite Soares, subordinada ao tema Do Concílio até hoje: O laicado nos documentos da Igreja. Partiu da visão trinitária da Igreja na constituição conciliar Lumen Gentium, para referir que a Igreja, sendo sinal e instrumento de unidade, não se pode definir primeiramente em função da instituição. Cristo pôs como sinal e instrumento de salvação a comunidade estruturada em ministérios. O Povo de Deus entende-se como a comunidade inteira de crentes à qual pertencem leigos, religiosos e hierarquia. É constituído por homens e mulheres que numa osmose orgânica de carismas, funções, serviços e ministérios, sob a condução do Espírito Santo, acolhem, celebram e atualizam a fé que faz ser Igreja de Deus. A nova conceção eclesiológica conciliar sublinha que a Igreja é também e sobretudo uma sociedade de iguais em dignidade. O primeiro valor não reside na hierarquia da Igreja, mas no ser cristão, fundado sacramentalmente e comprometido na ministerialidade da Igreja. Concebendo-se a teologia do laicado no interior da eclesiologia de comunhão, a relação entre a hierarquia e o laicado não assenta numa relação de fontalidade nem de dependência, mas numa relação de convergência na diversidade. Partindo o Povo de Deus da plataforma de igual dignidade na filiação divina obtida pelo batismo, todos os cristãos tendem à santidade e todos procuram levar a cabo a missão da Igreja, cada um segundo a sua via, nas funções e ministérios diversos suscitados pelo Espírito. O sacerdócio comum, diferentemente do sacerdócio hierárquico, atua-se na secularidade da vida.

Após ter esboçado os elementos principais da eclesiologia conciliar, o orador focou-se no período pós-conciliar, afirmando que a eclesiologia sobre o laicado aí chegou com duas questões principais: a identidade teológico-canónica do leigo e a missão específica do leigo no seio da Igreja e no mundo. Depois de apontar os documentos pós-conciliares mais significativos, referiu que na eclesiologia do Vaticano II o laicado é abordado essencialmente na linha da missão. Na exortação apostólica Christifideles laici de João Paulo II, é perspetivado, porém, na linha da comunhão, dado o contexto de florescimento de múltiplos movimentos eclesiais. Sublinhada a ministerialidade da Igreja donde brotam os diversificados serviços do Povo de Deus, era também necessário acentuar a dimensão missionária da comunhão. Assim se aflorou uma vez mais a teologia do laicado na sua identidade e na sua missão, vinculando a identidade do leigo à peculiaridade da sua missão. Afirmando a índole secular do leigo como constitutiva da sua identidade, o Cón. Alfredo Soares fundamentou-a sacramentalmente no batismo e na confirmação e para muitos no matrimónio. Partindo da identidade para a missão e fortalecendo na missão a identidade, os leigos santificam-se na normal vida profissional e social.

No cruzamento da identidade do leigo com a missão do laicado, os documentos pós-conciliares preferenciam a focagem na missão do leigo, ficando pelo caminho uma notória falta de aprofundamento da teologia do laicado. A centralidade da missão resulta do receio de duas tentações: o exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, abdicando das responsabilidades específicas no mundo profissional, social, económico, social e político; a legitimação da indevida separação entre fé e vida, entre aceitação do evangelho e ação concreta nas mais variadas realidades. Na reflexão do magistério continua em aberto um aprofundamento teológico sobre a identidade do leigo e um alargamento substancial sobre a sua ação e missão, participando no tríplice múnus de Cristo sacerdotal, profético e real.

O conferencista reportou ainda algumas observações sobre a missão laical em movimento eclesiais, elencando expressões de apreço por parte do magistério, a par de outras que incentivam o aprofundamento da natureza teológica e da tarefa missionária dos movimentos, a inserção das suas experiências nas Igrejas locais e paróquias em comunhão com os pastores, e a maturação da comunhão de todas as componentes eclesiais para que todos os carismas contribuam para a edificação do único Corpo de Cristo. Para o fim ficou um apelo aos leigos para que aprofundem com o apoio da teologia e do magistério a sua identidade, para que reconheçam que a sua missão nasce da comunhão e para que o CCC continue a ajudar neste caminho.

D. António Francisco dos Santos entregou então os diplomas aos alunos que terminaram os seus cursos. Em 2013/2014 concluíram a sua formação oito alunos do Curso Básico de Teologia, dois de cada um dos Cursos de Acólitos, Leitores e Salmistas, e quatro do Curso Geral de Música Litúrgica.

O bispo portucalense tomou então a palavra para uma intervenção que subordinou ao título A realidade do sonho e a alegria da missão. Evocou o sonho e a decisão de D. Florentino de criar o CCC e o imperativo de formação cristã emergente no contexto do concílio, para referir que, passadas cinco décadas, se testemunha a forma exemplar como este sonho se transformou em realidade. Acrescentou que o CCC constitui uma bênção para Igreja, contribuindo para a formação cristã de agentes pastorais. Agradeceu, por isso, a todos os que desde o início e desde o seu primeiro diretor, tudo quanto fizeram e fazem para que o CCC seja uma necessária e prestigiada instituição da diocese ao serviço da formação cristã. Lembrou o papel dos párocos que, sempre atentos ao desenvolvimento das suas terras e à formação cristã das suas comunidades, foram pioneiros e motores de mobilização, em ordem à frequência dos vários cursos, para concluir que a sua colaboração continua imprescindível. Constatando a exemplaridade da Igreja do Porto na audácia da renovação e no testemunho de vida conciliar, evidenciou o papel eclesial dos alunos formados no CCC e aludiu ao zelo e competência dos professores, funcionários e diretores, notando também o ambiente de família vivido na instituição, capaz de integrar os que chegam e unir na saudade os que partem. Terminou com um apelo a olhar o futuro. Encontrando-se a Igreja a caminho, “em saída” ou em missão, fez votos para que o CCC seja uma escola de comunhão para a missão e de missão para a comunhão.

A sessão solene foi encerrada com uma breve participação musical dos alunos do Curso de Música Litúrgica. José Manuel Leite, aluno que concluiu este Curso, interpretou ao órgão o Prelúdio e Fuga em Si b maior (BWV 560) e o coro cantou Ach, grosser Köning de J. S. Bach. A sessão prolongou-se ainda no encontro e na partilha informal entre os que por algum tempo foram ficando.