Sessão Solene de Início do Ano Letivo 2015/2016

 

 

 

 

«Fazer-se ao largo com redes novas e corações generosos na Igreja do Porto»

D. António na abertura do ano letivo 2015/2016

Realizou-se no sábado 17 de outubro de 2015, a sessão solene de início do ano letivo do Centro de Cultura Católica (CCC), sob a presidência de D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto. Compareceram vários professores e alunos, do presente e do passado, a que se juntaram familiares e amigos, sobretudo daqueles que concluíram os seus cursos no ano letivo transato e nesse dia receberam os seus diplomas.

Após a invocação Espírito Santo através do canto do Veni Creator Spiritus, pelo coro da Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos, dirigido por António Mário Costa, o P. Adélio Abreu, diretor do CCC, saudou os presentes, enquadrou a sessão e o ano letivo no âmbito do lema Revisitar o concílio, testemunhar a misericórdia, escolhido em função do cinquentenário do encerramento do concílio e do jubileu da misericórdia, e apresentou a situação atual do CCC, que no ano que começa conta com cerca de 30 professores e 126 alunos, distribuídos pelos diferentes cursos: Básico de Teologia - 53 alunos; Complementar de Formação de Catequistas - 2; Acólitos - 13; Leitores – 10; Música Litúrgica (Preparatório, Geral e Salmistas) - 48.

Atendendo ao cinquentenário do encerramento do concílio e da promulgação da sua constituição dogmática Dei Verbum, seguiu-se uma conferência do P. Domingos Areais, professor de Sagrada Escritura no CCC, sobre A revelação e a inspiração na constituição “Dei Verbum”. Começou por evidenciar a conceção pré-conciliar de que todo o Antigo Testamento tinha sido ditado por Deus a Moisés, para mencionar a viragem que com o concílio se operou no que à revelação divina diz respeito. A revelação de Deus acontece na história de um povo, originando uma tradição oral que depois converge numa tradição escrita. Quem escreve é fruto deste povo, inspirado pelo Espírito Santo. O conferencista referiu-se depois sumariamente ao percurso de seis anos de redação do documento, dando conta de que à primeira sessão do concílio chegou um documento desfasado, que nem sequer ia tão longe teologicamente quanto o magistério de Pio XII já dissera sobre a palavra de Deus. Na sucessiva reelaboração, que permitiu uma aprovação quase unânime, ficou, todavia, salvaguardada a importância da revelação e acentuaram-se as bases para uma reflexão posterior sobretudo no que reporta à inspiração.

No dizer do P. Domingos, o que de mais novo se encontra nesta constituição no que respeita à inspiração bíblica é a sua inserção dentro do tema da revelação de Deus. Antes, desde Leão XIII, a inspiração era apresentada como um fenómeno isolado entre Deus e o autor humano e em função da inerrância. Agora a inspiração é integrada no contexto mais amplo da revelação divina e indica-se a função da inspiração relativamente à revelação. A Dei Verbum sublinha que a ação inspiradora de Deus se ordena a conservar por escrito a revelação. O centro do documento é, pois, a revelação de Deus como palavra em que Deus se automanifesta aos homens. Para a permanência da revelação, a bem de todas gerações vindouras, seguiram-se dois caminhos, a tradição e a escritura, sempre sobre a assistência do Espírito Santo. Se até aqui a inspiração servia para fazer dos textos da Bíblia palavra de Deus, agora, segundo nova perspetiva da Dei Verbum, revelação e palavra de Deus identificam-se. A escritura é palavra de Deus por conter a revelação prévia à inspiração. O efeito próprio da inspiração é constituir a palavra de Deus conservada por escrito, de tal modo que a revelação se torna sagrada escritura, situando-se esta no plano da comunicação como linguagem escrita. Uma novidade também da Dei Verbum é o entendimento de que os autores humanos dos livros sagrados são verdadeiros autores. Deus é o autor da Bíblia enquanto fonte inspiradora da palavra, mas os autores humanos são também eles autores.

Em jeito de conclusão, O P. Domingos referiu que o II Concílio do Vaticano pôs a palavra de Deus no seu devido lugar no interior da Igreja: palavra escrita, literária, consagrada pelo Espírito Santo. A Dei Verbum abriu uma nova época na história da compreensão da revelação e da inspiração, pondo fim a alguns séculos de teologia bíblica em forma de controvérsia, que reduzia a Bíblia a uma mera norma para o ato da fé. Para evidenciar o contributo da Dei Verbum para a reflexão posterior, o conferencista apontou, a terminar, quatro grandes teólogos que aprofundaram esta temática nos anos posteriores ao concílio: Karl Rahner; Pierre Benoit; Luis Alonso Schökel; Pierre Grelot.

Finda a conferência, D. António Francisco dos Santos entregou os diplomas aos alunos que terminaram os seus cursos. Em 2014/2015 concluíram a sua formação nove alunos do Curso Básico de Teologia e dois de cada um dos Cursos de Acólitos, Leitores e Salmistas.

O bispo portucalense tomou então a palavra, começando por saudar todos os presentes, nomeadamente os professores e alunos. Centrou, depois, a sua intervenção em cinco ideias colhidas do quadro eclesial que nos encontramos a viver: o dia mundial das missões e a necessidade de a Igreja do Porto ser discípula missionária do evangelho; o cinquentenário da instituição do sínodo dos bispos e o entendimento da sinodalidade à luz do pensamento do papa Francisco, com incidência também no caminho de sinodalidade que a Igreja do Porto quer percorrer; o dia mundial da irradicação da pobreza e a constatação do elevado número de pessoas que em Portugal vivem nessa situação; a convocação do ano da misericórdia pelo papa Francisco no quadro do aniversário do encerramento do concílio e a perceção pontifícia de que as nossas tentações de severidade, de justiça fácil e rápida ou de vingança não podem ser atitudes da Igreja; a necessidade de nos fazemos ao largo com redes novas, numa expressão do papa Francisco, e o papel do CCC nesta tarefa mediante as suas iniciativas de formação.

A sessão solene foi encerrada com uma breve participação musical dos alunos do Curso de Música Litúrgica. Pedro Ferreira, aluno do terceiro ano do Curso Geral de Musica Litúrgica, interpretou ao órgão Nun danket alle Gott de S. Karg-Elert e o coro cantou Sicut Cervus de G. P. Palestrina.