Apresentação da tese de doutoramento do P. José Nuno ferreira da silva - 27 de novembro de 2012

 

 

 

 

 

A morte e o morrer entre o deslugar e o lugar

O Centro de Cultura Católica do Porto acolheu, na noite de 27 de novembro de 2012, a apresentação da tese de doutoramento em Bioética do P. José Nuno Ferreira da Silva, com o título A morte e o morrer entre o deslugar e o lugar: Precedência da antropologia para uma ética da hospitalidade e cuidados paliativos, publicada recentemente pelas Edições Afrontamento. Apresentaram a obra o Prof. António Ferreira, médico e presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de São João, e o P. Manuel Monteiro Mendes, pároco de Matosinhos. Leram a obra a partir de duas perspetivas diferentes: a dos profissionais de saúde e a da prática pastoral da Igreja.

O Prof. António Ferreira referiu tratar-se de uma obra essencial nos dias de hoje, para o Serviço Nacional de Saúde e para a Igreja, porque aborda a questão da morte num tempo em que a evolução tecnológica, o predomínio da tecnologia e a tecnocracia minaram valores fundamentais que estão na base da crise dos valores, provavelmente aquela que está na essência de todas as outras crises. Num tempo de busca da imortalidade biológica, a morte deixou de ter lugar na vida, passou a ser olhada como a sua antítese e deixou de ser entendida como inerente à vida. Abandonou assim a casa e passou para o hospital. Tornou-se um mero evento biológico tecnologicamente abordado dentro das paredes brancas e estéreis dos hospitais. Neste sentido deslugarizou-se e não adianta qualquer rebelião contra esse facto.

Importa, todavia, considerar que o hospital com as pessoas que o constituem é também um corpo de cultura. Nele, enquanto lugar humano, convivem o surgimento de novas vidas, o sofrimento, a inevitabilidade da morte, a esperança do renascimento. O hospital é, pois, no essencial um lugar do homem, «um lugar existencial integral», no dizer da obra apresentada. O hospital tem, pois, de entender e respeitar a singularidade da pessoa doente, mesmo se frequentemente os profissionais de saúde se preocupam mais com a doença do que com o doente e negam a morte, porque esta se lhes apresenta como um insucesso. Interessa, por isso, uma pedagogia da morte, feita na sociedade e nos hospitais. Nesta tarefa a Igreja católica tem uma responsabilidade essencial, enquanto tem nos hospitais capelães que são simultaneamente membros da Igreja e profissionais de saúde. A humanização da saúde é tarefa que não pode ficar pelo discurso. É necessário dar-lhe pelo menos uma dignidade organizacional semelhante à dos outros serviços mais tecnológicos que o hospital oferece.

Num desafio à leitura, o P. Manuel Mendes referiu tratar-se de um livro interpelante. A chave de interpretação encontrou-a nesta passagem conclusiva: «Só uma pessoa é lugar suficiente para outra pessoa, só uma pessoa é lugar à altura de outra pessoa, só uma pessoa é lugar simbólico de outra pessoa». Entende o P. Manuel Mendes que é aqui que o autor pretende fazer chegar todos os que têm a responsabilidade profissional e pastoral de se fazerem companheiros dos que estão mais perto de atravessar o limiar do último lugar da vida, os que ainda deste lado da ressurreição são próximos a morrer. Deslugarização foi o conceito encontrado pelo autor para referir este processo de deslocação da morte das mãos da família para as mãos dos profissionais de saúde, mesmo se tal deslocação não se esgota hoje nos hospitais e se estende hoje também aos lares de idosos. Serve também aquele conceito para referir a indignação sentida pela desumanidade do morrer no hospital, não atendendo ao que é a vida e portanto ao que é a morte. Serve ainda para provocar um sobressalto cívico, ou seja a necessidade de todos os intervenientes do processo do morrer, incluindo a Igreja, encontrarem um caminho que leve a morte e o morrer do deslugar ao lugar.

Para tal é necessário saber o que é a vida e a pessoa, recorrendo a uma boa antropologia que respeite a totalidade do homem, a dita «antropologia integradora», na expressão de Laín Entralgo, autor central na dissertação. Esta visão integradora exige o repensar do hospital, da medicina e até da pastoral. Sem uma sábia antropologia não é possível uma ética de sábios. Sem aquela os que têm responsabilidades na relação com os que vão morrer não passariam de estéreis moralistas ou de funcionários que executam atos sem que aconteça relação. A transformação do hospital deslugar no hospital lugar que abraça concretiza-se nos cuidados paliativos, «a mais humana das expressões da medicina», no dizer do autor, na medida em que se ocupam da pessoa na totalidade do seu mistério face à morte. Os cuidados paliativos podem ser profecia para a medicina da era da tecnociência, pois trata-se de baixa tecnologia e de alto contacto humano. Atravessa o livro a urgência da formação de todos os que se envolvem com as pessoas que estão próximas do morrer, dos profissionais de saúde aos voluntários, necessidade extensiva também aos agentes pastorais da Igreja. Ao sobressalto ético referido pelo autor, o P. Manuel Mendes acrescentou, na sua leitura pastoral, a necessidade de um sobressalto pastoral, capaz de reavivar a consciência cristã para o testemunho profético do sentido da vida, na consciência de que a morte mais não é do que o corolário de uma vida cheia de sentido, capaz de fazer passar para a plenitude que é Deus.

No termo da apresentação o Dr. Manuel de Lemos, presidente das União das Misericórdias Portuguesas, e o P. Lino Maia, presidente da CNIS e pároco de Aldoar, fizeram o seu comentário, qual ressonância da obra pela voz de pessoas ligadas a instituições sociais a quem ela pode certamente interessar, tanto mais que a deslugarização do morrer não acontece hoje apenas nos hospitais, mas também em lares e instituições de assistência a idosos e doentes. O Dr. Manuel de Lemos reconheceu no convite uma chamada de atenção para a necessidade de os hospitais, hospícios, lares e demais instituições se transformarem em lugares, sublinhando que, a partir da sua perspetiva, o lugar é a misericórdia. O P. Lino Maia reconheceu que os lares podem ser deslugares daqueles que esperam pela morte, referindo a importância de não viverem e de não morrerem sós. Retomando a ideia da pessoa como lugar simbólico da outra pessoa, referiu que os hospitais e os lares precisam de se transformarem em lugares não só de pessoas que partem, mas também de pessoas que assistem à partida.

Por fim, falou brevemente o autor, o P. José Nuno, para sublinhar o carater imperativo do testemunho da morte de alguém. Foi o sofrimento dos que morrem, das famílias e dos profissionais de saúde que o levaram a lançar-se no desafio do trabalho agora publicado. Acreditando no valor do que produziu, sublinhou acreditar também na relevância da sua reflexão tanto no campo da saúde quanto da ação pastoral da Igreja.

Seguiu-se uma sessão de autógrafos. A disponibilidade de muitos para estarem na apresentação e os livros que seguravam nas mãos ou desfolhavam com interesse significavam certamente também a disponibilidade para lerem a reflexão produzida, na intenção de contribuírem para a construção do lugar da morte e do morrer.