Dignos de esperança: atualidade de uma conceção conciliar da pessoa humana

O Centro de Cultura Católica do Porto, em colaboração com o Diaconado Permanente da Diocese, promoveu a segunda sessão do ciclo de conferências de 2025/2026, dedicado aos 60 anos da Gaudium et spes, documento fundamental do II Concílio do Vaticano. A iniciativa, que ocorreu em sala virtual na noite de 4 de novembro de 2025, foi muito participada, atendendo aos 102 dispositivos informáticos ligados. Teve como tema «Dignos de Esperança: atualidade de uma conceção conciliar da pessoa humana» e contou com a intervenção de Pedro Valinho Gomes, professor de Teologia na Universidade Católica de Lille.

Na sua exposição, o conferencista destacou a centralidade da dignidade da pessoa humana no pensamento conciliar e na doutrina social da Igreja, considerando a Gaudium et Spes «um verdadeiro manifesto do personalismo cristão». A célebre abertura do documento – «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje são também as dos discípulos de Cristo» – foi apresentada como expressão de uma Igreja que não faz discursos sobre o mundo nem o observa a partir de fora, mas vive nele e com ele, partilhando plenamente a condição humana transformada pela fé em Cristo.

Pedro Valinho Gomes sublinhou que a dignidade humana é inalienável, porque o ser humano é criado à imagem de Deus. Este princípio teológico fundamenta o respeito absoluto pela vida e pela liberdade, a solidariedade entre pessoas e a rejeição de práticas que negam o valor intrínseco de cada ser humano, como acontece com a pena de morte. O orador lembrou também que, na perspetiva bíblica, o bem é originário e o mal apenas original, recordando que «aquilo que está na origem do humano é a bondade».

Numa análise à narrativa da criação, o teólogo contrapôs os mitos antigos, que viam o homem como resultado de uma mistura de terra e maldade divina, à visão bíblica de uma humanidade boa e capaz de «preencher as esperanças do seu Criador». Cada pessoa é um dom gratuito e irrepetível, cuja dignidade não depende do seu estado moral, social ou físico.

A conferência concluiu com uma reflexão sobre a ligação entre dignidade e esperança, mostrando que ambas derivam da vocação transcendente do ser humano e da fé na ressurreição, que renova toda a criação. Pedro Valinho Gomes defendeu que a Igreja, fiel ao espírito conciliar, é chamada hoje a ser fermento de esperança no mundo, capaz de inspirar uma ética da confiança e uma visão integral da vida, em sintonia com os desafios contemporâneos da justiça, da ecologia e da paz.

A conferência prolongou-se ainda nas questões e observações dos presentes que permitiram alguns comentários e achegas por parte da conferencista.

A próxima sessão, a realizar também em sala virtual, está agendada para 2 de dezembro, às 21 horas. Versa sobre o tema «Matrimónio e família: realidade(s) e desafios» e conta com a orientação do Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar.

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