A sessão de 2 de dezembro de 2025 do ciclo de conferências «A “Gaudium et spes”, 60 anos depois: A esperança cristã no mundo de hoje», promovido pelo Centro de Cultura Católica e pelo Diaconado Permanente em colaboração com vários organismos diocesanos, foi dedicada ao tema «Matrimónio e Família: realidade(s) e desafios». Realizada por videoconferência e muito participada, atendendo aos 112 dispositivos informáticos ligados, contou com a reflexão do Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar, que assumiu a preparação e condução da sessão.
Na abertura, o diretor do CCC recordou que a «Gaudium et Spes» considerou o matrimónio e a família entre os «problemas mais urgentes» abordados na sua segunda parte, ao mesmo tempo que reconheceu que «o bem-estar da pessoa e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar». Por seu lado, Joaquim Valente, diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar, destacou o empenho do Secretariado na formação e no acompanhamento das comunidades, reforçando a importância de ultrapassar fronteiras entre grupos e movimentos, e de promover um trabalho verdadeiramente sinodal em prol da família.
Seguiu-se a intervenção principal, pela voz de José Manuel Cabeda, que integra a Comissão Permanente do referido Secretariado. Numa exposição detalhada, percorreu as grandes etapas da reflexão da Igreja sobre a família ao longo das últimas décadas, desde a visão mais doutrinal da «Gaudium et spes» até à abordagem pastoral e misericordiosa da «Amoris laetitia», passando ainda pelo magistério de João Paulo II e Bento XVI. Sublinhou que a compreensão da família evoluiu de uma perspetiva mais normativa para uma leitura atenta às pessoas concretas, às suas histórias e às complexidades que hoje marcam a vida familiar.
O conferencista salientou que as transformações culturais – desde a valorização extrema da autonomia individual até à fragilidade dos vínculos, passando pela migração, pela pobreza e pela secularização – colocam novos desafios à pastoral familiar. Recordou que os sínodos sobre a família convocados pelo Papa Francisco pediram à Igreja que partisse da realidade, discernindo caminhos para acolher, compreender e acompanhar. A este propósito, referiu temas delicados como o divórcio, as uniões irregulares, a violência doméstica ou a monoparentalidade, defendendo que a Igreja deve aproximar-se destas situações com misericórdia e não com julgamento.
Na segunda parte da apresentação, voltou o olhar para a Diocese do Porto. O Secretariado da Pastoral Familiar, composto por oito casais e um sacerdote, partilhou as dificuldades sentidas no na sua ação no terreno: ritmos díspares entre equipas, agendas dispersas, hábitos arraigados e interesses de grupos que dificultam a colaboração. Alertou para o risco de se investir demasiado tempo em estruturas internas e pouco na presença junto das pessoas. José Manuel Cabeda insistiu que a missão prioritária é tornar visível o cuidado de Deus na vida concreta das famílias, sobretudo das que se encontram feridas ou afastadas.
O apelo final foi claro: é necessário passar de uma pastoral centrada em eventos para uma pastoral de proximidade, construída com as comunidades, com metas concretas e enraizada na escuta. A Igreja deve ser mãe que acolhe, acompanha e cura, ajudando cada pessoa a reencontrar o caminho para “a casa do Pai”.
O encontro concluiu-se com um tempo de diálogo, no qual se reforçou a urgência de percorrer em conjunto um caminho verdadeiramente sinodal, capaz de renovar a esperança cristã no coração das famílias.
A próxima sessão, a realizar também em sala virtual, está agendada para 13 de janeiro, às 21 horas. Jorge Teixeira da Cunha, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, abordará o tema «Trabalho, economia e desenvolvimento humano integral».