No dia 13 de janeiro de 2026, realizou-se mais uma sessão do ciclo de conferências organizado pelo Centro de Cultura Católica e pelo Diaconado Permanente, para assinalar os 60 anos da Constituição pastoral Gaudium et spes do II Concílio do Vaticano. Dedicada ao tema «Trabalho, economia e desenvolvimento humano integral», a sessão, realizada por videoconferência, contou com a intervenção de Jorge Teixeira da Cunha, professor de Teologia Moral da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, bem como com a participação de um número significativo de pessoas, atendendo aos 101 dispositivos informáticos ligados.
Na sua comunicação, o docente começou por sublinhar a novidade metodológica introduzida pelo Concílio Vaticano II no campo da doutrina social da Igreja. Longe de um ensinamento “descendente”, centrado exclusivamente na hierarquia, a Gaudium et spes propõe um verdadeiro discernimento comunitário, em que todo o povo de Deus é sujeito ativo na leitura ética da realidade social. A Igreja deixa de se apresentar apenas como instância que ensina, para se reconhecer também como comunidade que aprende com a história e com o mundo, assumindo a pluralidade de perspetivas e a necessidade do diálogo em vista do bem comum.
O segundo eixo da conferência centrou-se no trabalho humano como núcleo da questão social. Jorge Cunha recordou que o cristianismo teve um papel decisivo na dignificação do trabalho produtivo, rompendo com a herança da antiguidade que o relegava para o universo da escravidão. A imagem de São José carpinteiro e da oficina de Nazaré simboliza, nesse sentido, uma verdadeira revolução cultural: o trabalhador produtivo torna-se membro pleno da cidade e da Igreja. Daqui decorre a afirmação do direito ao trabalho como direito a uma atividade livremente escolhida, justamente remunerada e conforme à vocação pessoal, condição essencial para a realização humana.
Ao abordar a economia, o conferencista evocou o otimismo que marcou o tempo conciliar, quando se acreditava que o progresso técnico e a interdependência entre as nações poderiam assegurar as necessidades da família humana e reduzir as desigualdades. A economia era então pensada como instrumento ao serviço das pessoas e o capital como “trabalho acumulado”. Hoje, advertiu, a autonomização da finança e fenómenos como a inteligência artificial colocam novos desafios, exigindo um repensar profundo das categorias herdadas.
Por fim, Jorge Teixeira da Cunha referiu-se a uma visão de desenvolvimento humano integral, solidário e endógeno, capaz de articular trabalho, economia e cultura ao serviço da dignidade da pessoa e do bem comum, num tempo marcado por rápidas transformações tecnológicas e sociais. No que respeita ao desenvolvimento humano integral, recordou que a finalidade da produção é o serviço da pessoa considerada em todas as suas dimensões – materiais, intelectuais, morais, espirituais e religiosas – e em qualquer contexto cultural ou geográfico. Este desenvolvimento é ser solidário, enquanto implica uma responsabilidade comum perante as desigualdades persistentes entre povos e regiões. É também endógeno, porque deve nascer a partir da cultura, da história e das capacidades próprias de cada comunidade. O progresso autêntico exige que cada povo seja protagonista do seu próprio futuro.
No diálogo final, os participantes colocaram questões sobre o impacto da inteligência artificial no futuro do trabalho, a crise da participação dos trabalhadores nas estruturas económicas e o papel da Igreja num contexto marcado pela predominância do setor financeiro sobre a economia real. Jorge Cunha sublinhou a urgência de um discernimento ético comunitário e a necessidade de formar consciências capazes de intervir criticamente na vida social.
O ciclo prossegue a 10 de fevereiro, com uma sessão subordinada ao tema «A Igreja no mundo contemporâneo: diálogo e missão» da responsabilidade do Secretariado Diocesano das Missões.