A conferência «A Igreja no mundo contemporâneo: diálogo e missão» realizou‑se em formato de videoconferência, com 99 dispositivos ligados à sala virtual, integrada no ciclo promovido pelo Centro de Cultura Católica e pelo Diaconado Portucalense para assinalar os 60 anos da Constituição Pastoral Gaudium et spes do II Concílio do Vaticano. A sessão foi preparada pelo Secretariado Diocesano das Missões e contou com uma breve intervenção de abertura do seu diretor, P. Alípio Barbosa, e com o desenvolvimento do tema pelo P. José Vieira, missionário comboniano.
O P. Alípio Barbosa referiu que o documento conciliar é sempre atual e desafiador, felicitando o Centro pela oportunidade de formação por meios digitais e por uma pedagogia concreta e encarnada, ligada à vida real. Apresentou o P. José Vieira como missionário, jornalista e teólogo, encarregado nesta sessão de articular o texto conciliar com a experiência missionária concreta.
Para ilustrar o núcleo do tema, o P. Alípio partiu de uma parábola e da célebre passagem de Jo 3,16, para mostrar que todo o diálogo – e, em particular, o da Igreja com o mundo – exige conhecer o outro, a sua situação e a sua realidade diferente. Recordou a evolução histórica da relação da Igreja com as culturas, desde a minoria dos primeiros séculos até ao confronto com a modernidade, e destacou na Gaudium et spes o regresso a uma atitude semelhante à da geração apostólica: anunciar com parresia, mas acolhendo, integrando e dialogando.
Tomando a palavra, o P. José Vieira definiu‑se como missionário por vocação, padre por ordenação e jornalista por profissão, evocando um itinerário permanências em Portugal, Etiópia, Sudão do Sul, Grã‑Bretanha e México. Assumiu que a sua reflexão brota dessa espessura de vida confrontada com a Gaudium et spes, o antigo “esquema 13” que, após um “parto difícil”, devolveu a Igreja ao mundo e a reconheceu como parceira da humanidade em transformação. . À luz do texto conciliar e sob o mote «Missão é diálogo», estruturou o tema em vários eixos: diálogo de vida, diálogo intercultural, diálogo com as questões de justiça, paz e integridade da criação, diálogo com o Espírito Santo e diálogo ecuménico e inter‑religioso.
No diálogo de vida, destacou a célebre abertura de Gaudium et spes – «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias…» – como programa de uma missão cordial, empática e solidária, que «tira a Igreja do templo e a envia às fronteiras da vida e da história». Dialogando com o magistério recente, evocou a imagem de uma Igreja «hospital de campanha», samaritana e vulnerável, que se deixa tocar pelas feridas do mundo e faz da opção pelos pobres elemento essencial da sua identidade e da sua missão. Nesse horizonte, sublinhou a importância da sinodalidade como «fazer juntos o caminho», não apenas no interior da Igreja, mas com todos, numa humanidade que «está no mesmo barco» e só pode reajustar a vida em conjunto.
O missionário desenvolveu também o diálogo intercultural, apontando a necessidade de reconhecer as «sementes do Verbo» nas culturas e de aprender a língua, os símbolos e a sabedoria dos povos para que o Evangelho não apareça como estrangeiro. Recordou, a propósito, o trabalho de tradução dos Evangelhos para a língua guji, na Etiópia, que levou as comunidades a afirmarem: «Jesus fala a nossa língua», e algumas adaptações litúrgicas inspiradas em símbolos locais. Alargando a perspetiva, referiu ainda o desafio de uma “Igreja 3.0” que saiba habitar o espaço digital, oferecendo formas novas de comunhão, diaconia e missão, para lá de simples publicações devocionais.
Ao tratar o diálogo com as questões de justiça, paz e integridade da criação, o P. José Vieira mostrou como a missão se concretiza em frentes muito diversas: do jornalismo entendido como serviço para dar “voz e vez” a povos esquecidos à promoção da educação das raparigas contra o machismo patriarcal, passando por projetos de reflorestação e pela reflexão pública sobre a pena de morte. Sublinhou que este compromisso comporta riscos e resistências, mas encontra respaldo na Gaudium et spes e na longa tradição de testemunhas que ligaram fé, justiça e paz. Insistiu ainda no discernimento no Espírito Santo como «agente principal da evangelização» e na necessidade de ouvir o que «o Espírito diz às Igrejas», interpretando as linguagens do tempo à luz da Palavra de Deus.
A dimensão ecuménica e inter‑religiosa foi ilustrada com episódios da Etiópia e do Sudão do Sul, onde a colaboração entre católicos, ortodoxos, protestantes e muçulmanos se revelou decisiva na busca da paz e na presença junto dos mais frágeis. O orador reconheceu as feridas históricas e as dificuldades geradas por linguagens de superioridade, mas apontou um caminho feito de relações pessoais, humildade, reconciliação e oração comum, inspirado no n. 92 de Gaudium et spes. Nesse sentido, citou palavras recentes do Papa sobre a prioridade do amor, do serviço, da escuta recíproca e da participação de todos como “mapa” para um diálogo inter‑religioso fraterno e respeitoso.
Na fase de diálogo, alguns participantes manifestaram apreço particular pelo testemunho missionário. A propósito de uma pergunta sobre a necessidade de missão na Europa, o P. José Vieira observou que hoje há mais missionários estrangeiros a trabalhar em Portugal do que missionários portugueses em países tradicionalmente considerados de missão, vendo nos fluxos migratórios um apelo a que a pastoral de manutenção se transforme em dinamismo missionário. Perante a questão sobre como evangelizar a Igreja em Portugal a partir de uma maior evidência na defesa dos pobres, indicou caminhos que passam pela articulação com estruturas de proximidade e por uma presença solidária que cuida e discerne, não renunciando à “obrigação” cristã de cuidar dos mais vulneráveis.
Na intervenção final, o P. Alípio Barbosa retomou algumas intuições da Gaudium et spes sobre as grandes questões do homem – sentido da vida, da morte, do sofrimento, da história – insistindo que só Jesus Cristo, encarnado, morto e ressuscitado, continuado na Igreja, revela em plenitude o sentido da existência humana. No termo do encontro, foi ainda anunciada para 3 de março a próxima sessão do ciclo, dedicada ao tema «Cultura, ciência, educação integral», a cargo do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária.