Cultura, ciência e educação integral

A conferência «Cultura, ciência e educação integral», integrada no ciclo «A Gaudium et spes 60 anos depois: A esperança cristã no mundo de hoje», decorreu na noite de 3 de março de 2026, em sala virtual. Foi um encontro promovido pelo Centro de Cultura Católica do Porto e pelo diaconado portucalense, com a colaboração desta vez do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária. A sessão teve como orador o seu diretor, o P. José Pedro Azevedo, e contou com 81 dispositivos informáticos ligados.

Após a saudação inicial do diretor do Centro de Cultura Católica, que enquadrou a conferência no percurso formativo iniciado em outubro para assinalar os 60 anos da Constituição pastoral Gaudium et spes, o P. José Pedro Azevedo apresentou a sua reflexão em vários momentos articulados, alternando exposição sistemática e interpelação pastoral. Começou por sublinhar que celebrar a Gaudium et spes não é apenas recordar um texto, mas reconhecer uma mudança de atitude da Igreja, chamada a olhar o mundo contemporâneo não como adversário, mas como interlocutor, com discernimento e esperança.

​A partir dos números 53-62 da Gaudium et spes, o conferencista deteve-se sobre a cultura como lugar teológico, definindo-a como tudo o que permite ao ser humano desenvolver as suas capacidades, organizar a vida social, exprimir a experiência espiritual e transmitir valores ao longo do tempo. Reafirmou que a pessoa é autora e destinatária de cultura e que o Evangelho não se identifica com nenhuma forma cultural particular, mas pode assumir, purificar e elevar todas as culturas, numa lógica de encarnação que inspira uma evangelização em diálogo, não como imposição.

​Num segundo momento, abordou a relação entre fé e ciência, evocando a afirmação conciliar da autonomia das realidades terrestres e a necessidade de integrar o progresso técnico num horizonte ético. Lembrou, neste contexto, o contributo da Ex corde Ecclesiae, de João Paulo II, para a missão das universidades e salientou que a pastoral universitária deve ser entendida como «pastoral de ponta», estratégica na presença da Igreja num espaço decisivo de produção de cultura, ciência e transformação social.

​A reflexão avançou depois para o tema da educação integral, sustentada numa visão elevada da pessoa humana que a Gaudium et spes expõe sobretudo nos números 12-22. Educar, insistiu o P. José Pedro Azevedo, não é apenas transmitir competências técnicas, mas formar pessoas livres, responsáveis, capazes de discernimento, num contexto marcado por ansiedade, isolamento, incerteza vocacional e fragilidade relacional, que afetam muitos estudantes do ensino superior.

​Ponto central da intervenção foi a abordagem da inteligência artificial como realidade que, caso o texto conciliar fosse hoje escrito, teria seguramente nele lugar próprio como tem na reflexão da Igreja. O orador destacou os desafios antropológicos colocados pela IA – do conceito de inteligência à responsabilidade moral, da reconfiguração do trabalho à tentação de reduzir a pessoa a mero processamento de dados – bem como os riscos de fragmentação do saber e de um progresso técnico desligado da sabedoria, já antecipados pela Gaudium et spes.

​Sem ignorar os riscos, o P. José Pedro Azevedo indicou também oportunidades evangelizadoras oferecidas pelas novas tecnologias, como o acesso alargado ao conhecimento, o estímulo à investigação interdisciplinar e o serviço à inclusão e ao bem comum, sempre que a técnica é colocada ao serviço da dignidade humana. Daí a importância de uma educação integral que forme o caráter para um uso crítico da tecnologia, cultivando valores como a honestidade, o rigor, a humildade e a consciência ética no trabalho académico e profissional.

​Situando esta reflexão no contexto concreto da Diocese do Porto, o diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária recordou a elevada densidade de estudantes e a forte presença de universitários estrangeiros, bem como o dinamismo cultural urbano da cidade. Referiu algumas linhas de atuação do Secretariado: formação de lideranças jovens, atenção à saúde espiritual e emocional, criação de comunidades de acolhimento e acompanhamento, e promoção de espaços de diálogo de fé, onde emergem cada vez mais interrogações ligadas à ciência, à técnica e à inteligência artificial.

​Na parte final, apontou vários desafios para a Igreja e para os agentes pastorais, em particular no meio universitário: investir na formação intelectual contínua, aprender as linguagens contemporâneas, superar simplificações ideológicas e evitar tanto a irrelevância cultural como a tentação de respostas fáceis. Insistiu num estilo dialogante, na capacidade de escutar perguntas difíceis e na necessidade de uma vida espiritual sólida que impeça que o ativismo substitua a oração e a profundidade interior.

​Encerrando a conferência, o P. José Pedro Azevedo propôs a expressão «fidelidade criativa ao espírito da Gaudium et spes» como síntese do caminho a percorrer. Seis décadas depois, a questão decisiva já não é a atualidade do Concílio, mas a forma como a Igreja atualiza a sua receção, oferecendo, no contexto universitário, lugares de pensamento exigente, diálogo cultural, fraternidade e esperança cristã, onde a tecnologia não apaga, mas serve a grandeza da pessoa humana.

Após o diálogo entre os participantes e o conferencista, encerrou-se a sessão, não sem antes se anunciar a próxima. A 2 de junho, às 21 horas, Alexandre Freire Duarte encerrará o ciclo com a conferência «A Gaudium et spes hoje: sinais dos tempos e discernimento cristão».

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